‘Quebra-cabeças’ político do Reino Unido pode estar longe de solução
Partido Liberal-Democrata é a chave para formar um governo de coalizão.
G1 ouve especialistas sobre a dificuldade do país para sair do impasse.
João Novaes Do G1, em São Paulo
O resultado final da eleição no Reino Unido divulgado na última sexta-feira (7) transformou o cenário político daquele país em um quebra-cabeça que poder estar muito longe de ser solucionado. Ao contrário do que ocorre tradicionalmente, neste pleito nenhum partido alcançou a maioria absoluta de vagas para controlar a Câmara dos Comuns, principal órgão parlamentar do país, o que deverá obrigar à formação de um governo de coalizão.
O partido Conservador, liderado por David Cameron, obteve a maior quantidade de MPs (membros do Parlamento), após treze anos de domínio do Partido Trabalhista, comandado pelo ainda primeiro-ministro Gordon Brown. No total, foram obtidas 306 vagas pelos conservadores contra 258 dos trabalhistas, em 650 possíveis. Como nenhum deles obteve a metade das cadeiras da casa mais uma (326), formou-se o que os britânicos chamam de “Parlamento truncado”. Esse cenário tornará obrigatório às duas principais bancadas buscar apoio do terceiro colocado no pleito, o Partido Liberal-Democrata, capitaneado pela ascendente figura de Nick Clegg, que elegeu 57 representantes.
As negociações dos “lib-dems” com os dois principais partidos já começaram, e os dois interessados se mostraram dispostos a fazer importantes concessões, que vão além do oferecimento de cargos no gabinete do próximo primeiro-ministro. As conversas com o Partido Conservador foram iniciadas antes, mas esbarram nas fortes divergências ideológicas entre as duas legendas. Nesta segunda-feira (10), os trabalhistas também anunciaram seu interesse em formar uma coalizão e que conversas em paralelo entre os dois partidos já tiveram início.
Divergência
Cientistas políticos consultados pelo G1 divergem a respeito do futuro político do Reino Unido em relação à previsão sobre qual força partidária estará no comando. O professor Demétrius Cesário Pereira, coordenador do Curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Belas Artes, acredita que, por razões ideológicas, os liberal-democratas deverão optar por uma aliança com os trabalhistas. Já o cientista político Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da USP, acredita que os conservadores conseguirão atrair os partidários de Clegg para o seu lado e formar o governo de coalizão. Só que ela não deverá durar muito tempo.
“Com o anúncio da futura renúncia de Gordon Brown do cargo de primeiro-ministro e da liderança do Partido Trabalhista feito nesta segunda-feira (10), o mais provável é que o futuro líder trabalhista assuma o cargo de primeiro-ministro, com o apoio dos liberal-democratas. E o nome mais cotado para o futuro premiê é o do atual ministro de Relações Exteriores, David Miliband”, afirmou Pereira. Para ele, a renúncia de Brown, que deve ocorrer antes de setembro, é um elemento-chave para que esta aliança se torne realidade. Clegg já havia dito antes da eleição que a coligação estaria condicionada à saída de Brown de Downing Street.
Entretanto, há um fator complicador: juntos, os dois partidos somam apenas 315 MPs, apenas nove a mais do que os conservadores e onze a menos para a maioria absoluta. Para formar um governo majoritário, trabalhistas e liberais teriam ainda de buscar apoio dos partidos pequenos, muitos deles com uma plataforma nacionalista, e agendas muito próprias, o que criaria uma aliança muito instável e de difícil governabilidade.
Leia também: Clegg elogia decisão de Brown e diz que negociará com os 2 partidos
Por sua vez, Oliver Stuenkel aposta suas fichas em um governo de coalizão formado por conservadores e liberal-democratas. Nesta segunda, David Cameron anunciou que estaria disposto a atender a principal reivindicação dos “lib-dems”: a realização de uma reforma eleitoral, só que mediante referendo.
Para Stuenkel, a oferta do referendo foi uma estratégia brilhante de Cameron. “Se for a proposta for a referendo, essa reforma não vai passar. Seria preciso uma energia de mobilização muito grande, pois o país não tem tradição nesse tipo de votação. Além disso, há outro componente cultural: o britânico nutre certo orgulho desse modelo eleitoral, o qual passaram a promover durante muitos anos para outros países, como na África. Se ele mudar agora, seria um fato histórico, embora essa campanha pela mudança exista há algum tempo”. Em sua opinião, a reforma eleitoral só passaria a ter respaldo popular na hipótese de uma outra eleição ser convocada e novamente o resultado provocasse um “Parlamento truncado”. Para ele, não há real interesse dos conservadores nem dos trabalhistas em mudar um sistema que os beneficia há décadas, e os liberal-democratas correm o risco de dar um tiro no próprio pé.
Possibilidades
Se os conservadores triunfarem em formar a aliança, Brown deverá se encontrar com a rainha Elizabeth 2ª e renunciar ao cargo de primeiro-ministro com efeito imediato. Se os liberal-democratas fecharem um acordo com os trabalhistas e outros partidos pequenos que lhe garantam a maioria, Brown poderá continuar no cargo de primeiro-ministro até que seu sucessor como líder dos trabalhistas seja escolhido.
“Uma segunda opção seria de os conservadores formarem um governo minoritário. Geralmente, essa composição não consegue cumprir todo o mandato e esbarraria em votações mais difíceis, e o governo não consegue ganhar os votos necessários, o que faz com que o premiê convoque novas eleições”, diz Stuenkel.
Gordon Brown, que permanece como premiê pelo menos até o fim das negociações entre os partidos, anuncia que deixará o n. 10 da Rua Downing Street e a liderança do Partido até setembro. (Foto: AP)Economia
As negociações podem durar horas ou até mesmo semanas. Até lá, enquanto uma definição não ocorrer, o país fica politicamente paralisado, o que provoca temor nos investidores internacionais, já que o país enfrenta uma situação econômica delicada. A cotação da libra e dos títulos públicos caiu depois do anúncio da saída de Brown. Os mercados temem uma demora na formação do novo governo pois ela atrasaria a adoção de medidas para conter o déficit público. Além disso, um governo de coalizão em um país pouco acostumado a esta tradição também não é visto com bons olhos pelos investidores internacionais e pela própria opinião pública britânica.
“O início do governo (da conservadora Margaret) Thatcher (1979-1990) foi um dos mais impopulares da história. Mas havia tanto desespero na época que ela obteve respaldo para adotar as medidas necessárias. Hoje, a situação econômica do país é ainda pior do que naquela época, mas não há a mesma disposição dos eleitores em aceitar essas mudanças. Para o novo governo ser eficiente, ele terá de realizar medidas impopulares, como aumento de impostos, e reformas duras e difíceis. Como agravante, em uma coalizão, há menos possibilidade de se aprovar medidas que sejam consideradas mais radicais. Assim como há uma demora maior na tomada de decisões, porque é preciso negociar mais. Os britânicos não estão acostumados a ler notícias sobre crises internas no governo”, afirma Stuenkel. O cientista político acredita que o ponto principal a ser combatido pelo futuro premiê deverá ser o corte dos gastos públicos. “Estranhamente parece que todo político no mundo evita tocar nesse assunto”.
União Europeia
Um dos pontos de maior discórdia entre conservadores e liberal-democratas está na relação do país com a União Europeia. Enquanto os Conservadores sempre mantiveram uma posição reservada em relação aos laços com a instituição, Nick Clegg trabalhou anos em diversos setores da UE antes de iniciar sua carreira política, que começou como eurodeputado. “O Reino Unido, independentemente do partido no poder, sempre foi um dos países mais nacionalistas quando o assunto é UE. O Partido Conservador tende a radicalizar ainda mais essa posição”, explica Demétrius Pereira. “A não-adesão ao euro e ao espaço Schengen (que permite a livre-circulação de pessoas) são exemplos dessa posição soberanista. Com os trabalhistas, o Reino Unido tende a cooperar um pouco mais com a Europa. Mesmo assim, os britânicos são contra uma política de segurança independente da Otan, defendendo a manutenção da aliança com os EUA”, afirma.










