A saga que dobra o regime


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Vivian Eichler

Ao expor ao mundo o desrespeito aos direitos humanos na China, ativista cego submeteu potências a um teste diplomático

O futuro do ativista cego que driblou seguranças em uma escapada digna de filme de aventura ainda é incerto, mas o drama de Chen Guangcheng abriu um flanco no autoritarismo do governo chinês. E uma ponta de esperança para os que denunciam abusos nos direitos humanos no país.

Os últimos dias foram um teste diplomático para a China e para os Estados Unidos, país que recebeu Chen, ferido, em sua embaixada no dia 22 de abril. Depois de uma reviravolta, a solução encontrada ontem não passou nem pela concessão de asilo político pelos EUA – o que teria poder simbólico de confronto –, nem pela opção de deixar o opositor na China à mercê do humor das autoridades.

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O desfecho mais factível é a possibilidade de Chen estudar Direito em uma universidade americana. Os EUA se comprometeram a dar o visto, e a China disse que ele poderia encaminhar os papéis para deixar o país“conforme a lei”. Integrante da organização Chinaaid em Los Angeles – ONG que deu apoio a Chen na fuga de casa e que dá suporte financeiro a ele e a outros ativistas –, Eduardo Romero comemorou a projeção do caso.

– Até então, Chen era propriedade da China. Mas a razão pela qual o deixam ir não é por bondade, mas para tirá-lo de cena. Eu ficaria surpreso se quisessem ficar com ele, quando todas as organizações irão monitorar sua situação – disse Romero, por telefone, a ZH.

A Chinaaid, que aponta milhares de casos de prisões sem acusação formal, como em perseguições a cristãos (um dos motivos para Chen ter sido fichado, além do ativismo político), avalia que o país está diante de um momento histórico. A fuga – assim como o sumiço do artista plástico Ai Weiwei em 2011– atraiu os olhos do mundo para a China, que também mergulha em crise provocada por escândalos na sucessão do Partido Comunista.

– Já havia um desastre interno com a saída de Bo Xilai (líder do PC retirado da linha sucessória em um enigma que envolve corrupção, assassinato e espionagem). Esperamos que agora ocorra um movimento – acrescenta Romero.

Analista da revista American Interest, Walter Russell Mead, avaliou ontem que os governos chinês e americano conseguiram lidar com um tema sensível como os direitos humanos sem deixar de negociar acordos econômicos em Pequim. Mead considera o caso um sinal de que “a possibilidade está aberta para progresso significativo em uma série de temas”, escreveu.

Para o especialista em potências emergentes Oliver Stuenkel, a China atingiu um patamar que a torna praticamente intocável. Leia trechos da entrevista:

Zero Hora – Por que os EUA não aumentam a pressão sobre a China nos direitos humanos?

Oliver Stuenkel – Pela interdependência mútua e pela importância econômica da China, é cada vez mais difícil influenciar o governo chinês. Não só os EUA, como nenhum outro país, atualmente, é capaz de impor sanções à China. Ela já é grande demais para ser pressionada, além de ser o parceiro comercial mais importante de muitas nações.

ZH – Qual o panorama para o futuro desse tema?

Stuenkel – Existe a perspectiva de que, entre 2018 e 2022, a economia chinesa supere a americana. A influência geopolítica da China sobre o mundo aumentará drasticamente, o que pode ter um impacto significante sobre a promoção dos direitos humanos. Como principal economia, a China não será uma promotora desses conceitos, que os EUA promovem ativamente. Além disso, o sucesso econômico da China faz com que ela represente cada vez mais a modernidade.

ZH – Qual a preocupação do Partido Comunista?

Stuenkel – A China investe muito na segurança interna porque enxerga grandes ameaças a sua segurança na forma de grupos de oposição e dos que criticam o governo, por exemplo, pela política de direitos humanos. Existe todo um aparato interno para vigiar essas pessoas. É um fator que mostra a grande preocupação do Partido Comunista, que sabe que perderá legitimidade se o crescimento econômico baixar.

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