Obama: sem despertar fervor nos EUA, mas preferido na América Latina

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Maioria da população no Panamá, México, Peru e Brasil votaria no democrata

As eleições presidenciais nos Estados Unidos são um evento global. Jornais no mundo inteiro analisam as declarações dos candidatos e debatem como a vitória de cada um afetaria a posição dos Estados Unidos no cenário global. Faz sentido, pois, apesar do seu declínio relativo, os EUA são o único ator capaz de desenhar e implementar uma política externa verdadeiramente independente. Nenhum outro país do mundo pode se permitir não se importar com a estratégia global dos Estados Unidos. Mesmo para os BRICS, incluindo o Brasil, a relação bilateral com os EUA é mais importante do que com as outras potências emergentes.

Apesar da atual campanha do presidente não conseguir gerar o fervor de 2008, em quase todos os países ao redor do mundo, a maioria das pessoas tem preferência pela reeleição de Barack Obama. O mesmo se aplica na América Latina. Uma pesquisa de opinião da CNN revelou que a grande maioria da população no Panamá, México, Peru e Brasil votaria no Presidente Obama. No Brasil, 65% dos entrevistados apoiam Obama, e apenas 6%, o candidato republicano Mitt Romney.

O apoio brasileiro a Obama é mantido apesar de que as relações entre Brasil e Estados Unidos têm sido dificultadas devido a várias questões espinhosas, como o rompimento brasileiro com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), posições divergentes sobre mudança climática, sua postura diante da Líbia e da Síria, a questão de como lidar com Irã, Venezuela e Cuba (referente a Guantánamo e ao regime de Castro) e em relação à flexibilização quantitativa estadunidense – uma estratégia que, na perspectiva brasileira, levou ao “tsunami monetário”.

Apesar dessas complexidades, não há diferenças substanciais entre as estratégias que os dois candidatos pretendem adotar em relação à América Latina. Assuntos internacionais não têm importância nestas eleições e, quando o tema é abordado, fala-se apenas da China, do Irã, do conflito entre Israel e Palestina e da problemática do Afeganistão e do Paquistão. É pouco provável que a relação bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos mude fundamentalmente se Romney ganhar as eleições no dia 6 de novembro.

Ao mesmo tempo, após terem estremecido no final do governo Lula, os laços brasileiros com Washington melhoraram. O Brasil está cada vez mais assumindo uma responsabilidade regional, elevando as relações brasileiras e estadunidenses a um novo nível ao transformá-las em um diálogo entre o líder da América do Norte e o da América do Sul. Apesar da rejeição de Obama de expressar seu pleno apoio à ambição brasileira de se tornar um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a relação atual, sob articulação de Antonio Patriota, é muito mais construtiva e cordial do que a de seu predecessor, Celso Amorim.

Barack Obama aparenta ser mais consciente do que o seu adversário de que as potências emergentes devem ser incluídas nas estruturas de governança global. Ele já se posicionou a favor da reforma do sistema de cotas do Fundo Monetário Internacional (FMI), uma postura fortemente apoiada pelo Brasil. Ainda assim, diante da extrema e sem precedente polarização política em Washington, é pouco provável que qualquer presidente americano consiga implementar esse tipo de iniciativa. Independentemente de quem sairá vitorioso nesta eleição, os políticos em Brasília não medirão esforços para estreitar os laços com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, eles sabem que a determinação brasileira de se envolver em questões tradicionalmente reservadas às potências estabelecidas, como a do conflito no Oriente Médio, periodicamente irá dificultar a relação entre Brasil e Estados Unidos.

Oliver Stuenkel é professor do Centro de Relações Internacionais do CPDOC/FGV