A aposta de Kissinger no Brasil emergente

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Kissinger

Resenha de livro. Matias Spektor: Kissinger e o Brasil. Zahar, 2008. 234 páginas. R$ 29,90 (www.amazon.com.br)

Um dos grandes desafios do atual governo brasileiro é achar maneiras de melhorar as relações com os Estados Unidos, que atingiram seu ponto mais baixo quando Dilma Rousseff cancelou uma visita de Estado a Washington, DC depois das revelações de espionagem no final de 2013.

Historicamente, as relações Brasil-EUA têm sido marcadas por expectativas irreais, negligência ou uma falta de compreensão e confiança mútua, como mostra o livro Kissinger e o Brasil, escrito por Matias Spektor.

O livro descreve um esforço notável de Kissinger para formalizar uma aliança Brasil-Estados Unidos, que culminou com sua visita para o Brasil em 1976 e com a assinatura de um acordo que institucionaliza consultas regulares de alto nível. Kissinger estava convencido de que o Brasil era um ator chave nas relações internacionais. Junto com o Irã, Indonésia e África do Sul, o Brasil era, na sua visão, uma das potências para as quais os Estados Unidos deveriam delegar alguma autoridade para o estabelecimento de projetos de hegemonia regional, tornando-se âncoras na luta contra o comunismo.

A iniciativa de Kissinger coincidiu com a tentativa histórica do chanceler brasileiro Azeredo da Silveira de fortalecer a projeção global do Brasil, um projeto descrito como "pragmatismo ecumênico e responsável", que incluía um engajamento com novos parceiros, independentemente de suas orientações ideológicas. A relação entre os dois chanceleres - ambos indivíduos que influenciaram as políticas externas dos seus respectivos países - é o tema central da excelente análise de Spektor.

O plano de Kissinger acabou fracassando. Logo após o estabelecimento de reuniões regulares de alto nível, tudo mudou quando o novo presidente americano Jimmy Carter começou a criticar a estratégia de Kissinger e os abusos de direitos humanos da ditadura militar brasileira. No entanto, mesmo antes disso, o projeto de aproximação foi marcado pela decepção e incompreensão frequentes. Kissinger supôs erradamente que o Brasil iria se transformar em um aliado dos EUA contra a OPEP e que o governo brasileiro iria abandonar suas ambições nucleares. Azeredo, por outro lado, não obteve a desejada redução de tarifas dos Estados Unidos sobre as exportações brasileiras. De acordo com Spektor, o Brasil foi, pelo menos em parte, culpado, uma vez que nunca se preocupou em aprender como efetivamente influenciar a dinâmica política na capital estadunidense. Desde aquela época, parece que pouco mudou. Em sua coluna na Folha de São Paulo, em 2012, Spektor lamentou que o Brasil ainda não tinha, ao contrário de outras potências emergentes, uma estratégia clara de como defender seus interesses em Washington, DC.

Equipado com a nova evidência histórica, o livro de Spektor desafia, assim, a narrativa brasileira dominante das relações do país com os Estados Unidos. Ao contrário do consenso estabelecido pelo historiador Luiz Alberto de Moniz Bandeira da "teoria da rivalidade emergente", o qual os Estados Unidos têm consistentemente procurado limitar a ascensão econômica e projeção de poder regional do Brasil, Kissinger e o Brasil propõe uma interpretação mais sutil e convincente. Ao invés de criar obstáculos para o Brasil, os Estados Unidos às vezes procuraram ativamente promover a ascensão do Brasil e tentaram incentivá-lo a desenvolver uma postura mais assertiva nas relações internacionais.

Embora analise uma época diferente, algumas das lições mais amplas de Kissinger e o Brasil são comparáveis àquelas de 18 Dias, o segundo livro de Spektor, sobre as relações Brasil-EUA no início do século 21 (veja a resenha aqui). Ambos os livros sugerem que, ao contrário do que muitos analistas da política externa brasileira acreditam, conter ativamente a ascensão do Brasil nunca foi uma prioridade dos Estados Unidos. Em vez disso, os Estados Unidos, sob Kissinger, imaginavam um papel de liderança regional para o Brasil que os militares brasileiros estavam relutantes a assumir (por exemplo, quando surgiram algumas tensões entre a Argentina e o Chile). Ao mesmo tempo, o governo brasileiro sempre tinha um forte interesse que o Brasil fosse tratado como um igual pelos Estados Unidos.

Similar a 18 Dias, Kissinger e o Brasil levanta, de maneira implícita, a importante questão: indivíduos têm a capacidade de impactar a história de uma forma duradoura ou fatores estruturais determinam a história? Apesar de reconhecer a importância da estrutura, a ênfase de Spektor está nas personalidades e nos laços pessoais entre Kissinger e Azeredo da Silveira, bem como suas visões e crenças, que sugerem que os indivíduos importam, mesmo que o interesse pessoal de Kissinger e ativismo vis-à-vis ao Brasil tenham tido um impacto reduzido a longo prazo.

Spektor está relutante em tirar muitos paralelos entre as relações Brasil-Estados Unidos na década de 1970 e as de hoje. Mesmo assim, muitos leitores vão reconhecer semelhanças inconfundíveis entre as visões de mundo de Azeredo da Silveira e Celso Amorim, que serviu como ministro das Relações Exteriores do presidente Lula, de 2003 até 2010. Sob Azeredo e Amorim, o Brasil aumentou a sua presença diplomática de maneira notável. Os chanceleres de Lula e de Geisel disfrutaram de uma autonomia considerável e de apoio político para se envolver em questões nem sempre livres de controvérsia. Por exemplo, o reconhecimento da independência de Angola pelo Brasil foi uma iniciativa de alto risco. Kissinger e o Brasil contém uma descrição muito interessante do episódio, que inclui detalhes que muitas vezes faltam em livros que analisam a história dos laços entre o Brasil e a África. Similar a 18 Dias, Kissinger e o Brasil que fornece uma visão fascinante sobre os meandros do cotidiano da política externa. Assim, além de sua grande contribuição para o debate histórico, Kissinger e o Brasil é um leitura obrigatória para os interessados em política externa brasileira.

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