Envio de tropas brasileiras à África Central seria boa notícia para o Brasil e o mundo

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Usar problemas domésticos como justificativa para reduzir atuação internacional do Brasil é equívoco

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/12/opinion/1505234666_502675.html

A ordem global atual caracteriza-se por um vácuo de poder sem precedentes, situação descrita como “mundo G-zero” e “sem líderes” por Ian Bremmer, presidente do grupo Eurasia, consultoria de risco político. Com os Estados Unidos cada vez menos capazes ou dispostos a assumir liderança e prover bens públicos globais, a urgência de que outros fortaleçam sua atuação é imensa para que a comunidade internacional possa lidar com os chamados ‘desafios sem fronteiras’ — como migração, instabilidade financeira e governança da internet. Na área de mudanças climáticas, por exemplo, a União Europeia e a China estabeleceram a chamada “aliança verde” em resposta à retirada dos EUA do Acordo de Paris.

Nesse contexto, a possibilidade de o governo brasileiro enviar tropas para participar da MINUSCA, missão de paz da ONU na República Centro-Africana, é uma excelente notícia, tanto para o interesse nacional brasileiro quanto para a ordem internacional. O Ministério da Defesa considera o envio, em 2018, de aproximadamente 800 soldados, o equivalente a um batalhão de infantaria, ao país onde um quinto da população está internamente deslocado por causa da guerra civil. A situação na República Centro-Africana está pior do que a do Haiti, onde capacetes azuis brasileiros atuaram ao longo dos últimos anos. Mesmo assim, há semelhanças com a ilha caribenha, dando às tropas brasileiras — que têm preparo acima da média na ONU — uma vantagem comparativa, e condições de ajudar a estabilizar a situação. Os ganhos para as Forças Armadas brasileiras seriam significativos, ao manter militares na ativa, ao aperfeiçoar conhecimento em logística e ao reforçar sua projeção de poder (capacidade de um exército de projetar força distante do seu próprio território). Os soldados brasileiros voltariam ao Brasil com uma experiência internacional relevante e mais habilidades de comunicação intercultural. Em função da complexidade da situação na República Centro-Africana, a Força Aérea Brasileira teria aeronaves (inclusive o Super Tucano e helicópteros Black Hawk) atuando em áreas de conflito pela primeira vez desde a 2.ª Guerra Mundial. Dito de outra maneira, sofisticaria e tornaria mais versátil o hard power brasileiro — nada trivial em um cenário global altamente imprevisível.

Além disso, o envio de tropas teria um baixo impacto no orçamento, pois se trataria apenas de uma realocação do número de soldados que saiu do Haiti e não de um aumento na participação brasileira em missões de paz. Outro ponto muitas vezes ignorado é que a ONU repassa ao governo brasileiro uma quantia considerável por sua atuação em uma missão de paz, reduzindo, assim, o custo ao contribuinte nacional. É verdade que seria necessária a abertura de uma embaixada brasileira em Bangui, mas as implicações financeiras seriam modestas.

Críticos poderiam questionar: já que o Brasil atravessa um momento de crise política e econômica, por que não deixar as potências estabelecidas cuidarem dos assuntos internacionais mais complexos? Tal indagação é perigosa por duas razões. Em primeiro lugar, 

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